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Decisão

O mito do líder que "nasceu bom de decisão"

Admiramos o executivo que "simplesmente sabe" decidir. Mas boa parte desse dom é retrospectiva: contamos os acertos, esquecemos os erros e chamamos de talento o que foi contexto, repetição e sorte. Decidir bem não nasce pronto — constrói-se.

Por Alexandre Ivo · 5 min de leitura

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Toda organização cultiva um personagem quase mítico: o executivo que "tem faro". Dizem que ele enxerga oportunidades antes dos dados, escolhe pessoas pelo instinto e acerta quando ninguém mais acertaria. Histórias assim alimentam uma das crenças mais persistentes da gestão: a de que alguns líderes simplesmente nasceram sabendo decidir. A narrativa é irresistível — e vende livros, palestras e promoções. O problema é que, na maioria das vezes, ela é uma reconstrução conveniente do passado.

A ideia do líder que "nasceu bom de decisão" é um dos mitos mais caros da gestão. Não porque bons decisores não existam — existem —, mas porque atribuímos a um dom inato o que, olhado de perto, é outra coisa: contexto favorável, repetição e uma dose de sorte que a memória converte em talento.

Como o mito se constrói

A ilusão se monta de três maneiras, todas bem documentadas. A primeira é o viés de retrospectiva: depois que o resultado aparece, ele parece óbvio, e quem acertou vira "visionário" — mesmo que, na hora, a decisão fosse um tiro no escuro. A segunda é o viés de resultado (outcome bias): julgamos a qualidade da decisão pelo que aconteceu, não pelo processo — e, num mercado em alta, quase toda aposta "dá certo". A terceira é o que Kahneman chamou de ilusão de validade: a mente costura os acertos numa história coerente de genialidade e apaga, em silêncio, os erros que não se encaixam.

Falta ainda o mais traiçoeiro: o viés do sobrevivente. Só enxergamos os líderes que o "faro" levou ao topo. Para cada um deles, dezenas de outros — com o mesmo instinto, a mesma ousadia — decidiram do mesmo jeito e quebraram. Esses não escrevem os livros. A literatura sobre liderança é escrita, em grande parte, pelos sobreviventes; quase nunca ouvimos os que decidiram do mesmo modo — e fracassaram. Sem eles na conta, confundimos o que restou com prova de talento, quando talvez seja apenas o que sobrou depois da peneira do acaso.

A intuição tem condições de uso

Isso não significa que a intuição executiva seja fantasia. Significa que ela tem condições de uso. Kahneman e Klein, que discordaram por décadas, concordaram em 2009 num ponto: a intuição confiável só se desenvolve onde o ambiente é regular o bastante para conter padrões e onde a pessoa teve feedback rápido para aprendê-los. Ou seja, o "dom" é expertise construída sob condições específicas — não magia. Anders Ericsson mostrou o mesmo pelo avesso: o que parece talento quase sempre é prática deliberada acumulada. O bombeiro que "sente" o prédio que vai ruir treinou esse faro em centenas de incêndios. O executivo que "sente" o mercado pode estar reconhecendo padrões reais — ou apenas repetindo padrões que deixaram de existir.

A psicologia explica por que construímos esse mito. A neurociência ajuda a entender por que a capacidade de decidir, na prática, também pode ser treinada. Julgar bem — sopesar, inibir o impulso, mudar de abordagem — depende de funções do córtex pré-frontal que Earl Miller descreve como controle executivo. Não é um dote fixo gravado no nascimento: é um circuito que se treina e se desgasta, que a prática fortalece e o estresse crônico corrói. No cérebro, decidir bem se parece muito mais com um músculo do que com uma cor de olhos.

Por que isso é problema de gestão

Por que isso importa para quem lidera pessoas? Porque o mito do decisor nato é um obstáculo prático. Se decidir bem é dom, a organização só pode caçá-lo: procura o "talento", promove quem parece ter faro e cruza os dedos. Se decidir bem é capacidade, ela pode construí-lo — com treino sob pressão, com feedback honesto sobre o processo (e não só sobre o resultado), com ritos que exponham o julgamento à prova. A primeira crença leva à loteria; a segunda, ao método.

Talvez o líder mais perigoso não seja o que decide mal. É o que acredita, sobre si mesmo, que decide bem por natureza — porque é justamente essa crença que dispensa o treino, ignora o feedback e transforma sorte passada em confiança futura. O bom decisor raramente é o que nasceu sabendo; é o que nunca parou de aprender a decidir. E talvez o maior erro das organizações não seja acreditar que alguns líderes nascem prontos — seja acreditar que os outros nunca poderão aprender. Quando tratamos a decisão como dom, desistimos de desenvolvê-la. Quando a tratamos como capacidade, começamos a construir organizações que aprendem a decidir melhor.

Alexandre Ivo.
Liderança que pensa.
alexandreivo.com.br · @alexandreivo80