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Foco

A tirania do sim

O sucesso gera tantas oportunidades que acaba sabotando o foco que o produziu. O líder que resolve tudo vira, sem perceber, o líder que não avança em nada.

Por Alexandre Ivo · 4 min de leitura

Imagine um líder talentoso — vamos chamá-lo de Marcos. O sucesso o levou ao topo, e por causa disso todos o procuram: convites para reuniões, pedidos de "uma ajudinha rápida", projetos transversais. Marcos, querendo ser colaborativo e temendo parecer inacessível, diz sim. Meses depois, está exausto, com a sensação de avançar um milímetro em um milhão de direções. O brilho que o levou à liderança começou a apagar, sufocado por mil responsabilidades triviais.

O que Marcos não percebeu é um dos paradoxos mais cruéis da carreira: o sucesso pode ser o maior catalisador do fracasso. Greg McKeown chama isso de "paradoxo da clareza" — o sucesso gera opções e oportunidades em tal volume que elas dispersam exatamente o foco que originou o sucesso. Você é punido, em atenção, por ter dado certo.

A tirania do "sim" por padrão

Quantas vezes você respondeu "sim" sem pensar — para agradar, para evitar atrito, ou simplesmente porque o sim virou resposta automática? A verdade é desconfortável: quase tudo é ruído, e pouquíssimas coisas são essenciais. Quando tentamos fazer tudo e agradar a todos, entregamos uma versão diluída de nós mesmos a muitos, em vez da contribuição máxima a poucos.

Adam Grant, ao estudar generosidade no trabalho, encontrou um dado que deveria assombrar todo "líder solícito": os doadores são, ao mesmo tempo, os profissionais de maior e de menor desempenho. A diferença não está em dar — está em como. O doador que diz sim a tudo, sem critério, é o que mais se esgota e menos entrega; ele se torna gargalo de si mesmo. O doador eficaz protege o próprio foco para poder, de fato, ajudar no que importa. Generosidade sem fronteira não é virtude; é negligência com a própria capacidade de contribuir.

Weniger, aber besser

Há um princípio alemão que o designer Dieter Rams cunhou e que resume a liderança de alto impacto: weniger, aber besser — menos, porém melhor. Não se trata de trabalhar menos, e sim de investir tempo e energia da forma mais sábia possível. Exige pesar opções, tomar decisões difíceis e rejeitar a fantasia de que se pode fazer tudo bem ao mesmo tempo.

O economista Herbert Simon explicou por que isso é inescapável: numa era de abundância de informação, o recurso verdadeiramente escasso passa a ser a atenção. "Uma riqueza de informação cria uma pobreza de atenção", escreveu. Cada sim gasta uma fração desse recurso finito — e, por isso, todo sim é, silenciosamente, um não a outra coisa. O custo de oportunidade não desaparece quando você o ignora; ele apenas deixa de ser escolhido por você e passa a ser decidido pela sua agenda.

Se você foi convidado para uma reunião mas não tem uma contribuição vital a dar, por que está lá? Ter sido convidado não é razão suficiente para comparecer. Cada minuto numa reunião irrelevante é um minuto roubado da estratégia que mudaria o jogo.

O filtro da decisão

A correção começa com uma pergunta brutalmente honesta diante de cada pedido: "esta é a coisa mais importante que eu poderia fazer com o meu tempo e os meus recursos agora?" Se a resposta for "não" — ou mesmo um "talvez" —, a resposta final deveria ser um não educado, mas firme.

Há um critério adicional que protege a qualidade: se você não tem tempo ou recursos para atender a um pedido com excelência, aceitá-lo não é gentileza — é negligência. Você compromete duas coisas de uma vez: a entrega que prometeu e a reputação de que entrega bem. Um "não" honesto preserva ambas; um "sim" sem condições destrói as duas devagar.

Para tornar isso operacional, vale separar o "bom" do "vital". Quase tudo que chega à sua mesa é, em alguma medida, bom — útil, legítimo, defensável. Exatamente por isso o filtro não pode ser "isto é bom?". Tem de ser "isto é o vital de agora?". O bom é o maior inimigo do essencial, porque é bom o bastante para você dizer sim e medíocre o bastante para drenar o que importa.

Uma reflexão

O mais difícil de encarar é que o "sim" por padrão raramente é generosidade — é, com frequência, uma forma de evitar desconforto. Dizer não custa: custa o risco de decepcionar, de parecer arrogante, de perder a imagem de quem está sempre disponível. O sim automático compra alívio imediato e cobra o preço depois, na forma de uma liderança espalhada fina demais para ter impacto em qualquer lugar.

Liderar não é sobre quanto você consegue carregar; é sobre onde você escolhe concentrar a sua força. Ao eliminar o que é apenas bom, você abre espaço para o que é vital. A pergunta que fica é a que separa o avanço de um quilômetro numa direção do milímetro em mil: qual foi a última vez que você disse "não" a algo importante para poder dizer um "sim" extraordinário ao que realmente importava?

Alexandre Ivo.
Liderança que pensa.
alexandreivo.com.br · @alexandreivo80