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Gestão Pública

Decidir rápido não é decidir bem

Na administração pública, a qualidade da liderança depende menos da velocidade das decisões do que da robustez do processo que as produz — e, ao contrário do que se supõe, isso pode ser avaliado.

Por Alexandre Ivo · 7 min de leitura

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Há uma imagem de liderança que atravessa gerações e resiste a qualquer mudança de gestão: a do dirigente que decide. Aquele que corta o nó, que não se perde em análises, que transforma a hesitação da máquina em movimento. Num ambiente frequentemente acusado de lento, essa figura tem um apelo quase irresistível — decisão virou sinônimo de coragem, e velocidade, sinônimo de competência. O problema é que talvez estejamos elogiando a coisa errada.

Porque decidir e decidir bem são dois atos distintos, e apenas o primeiro é visível. Quando um gestor público decide, vemos o gesto: a assinatura, o despacho, a medida anunciada. Não vemos o processo que levou até ali — se as alternativas foram consideradas, se as evidências contrárias foram buscadas, se a decisão distinguiu o que era reversível do que jamais poderia ser desfeito. O gesto é público; o julgamento que o sustenta é privado. E, como julgamos o que vemos, aprendemos a admirar a rapidez do gesto e a ignorar a qualidade invisível que o antecede.

Essa confusão teria pouca importância se velocidade e qualidade caminhassem juntas. Não caminham. Em ambientes estáveis, decidir rápido é quase sempre uma virtude: os padrões se repetem, o retorno é imediato, e o erro se corrige antes de custar caro. A administração pública raramente opera assim. Ela decide sob incerteza estrutural — informação incompleta, futuros abertos, consequências que só se revelam anos depois — e sob uma sobreposição de pressões que o setor privado desconhece na mesma intensidade: a política, a jurídica, a social, a institucional. Cada uma delas cobra uma resposta, e todas a cobram depressa. É precisamente onde a pressa é mais exigida que ela se torna mais perigosa.

Administrar é decidir

Foi Herbert Simon quem, há mais de setenta anos, deu à administração pública o seu enquadramento mais duradouro: administrar é decidir. Não é apenas executar ordens nem gerir recursos; é, no fundo, produzir decisões sob os limites da racionalidade humana — o que ele chamou de racionalidade limitada. Nenhum dirigente dispõe de toda a informação, de tempo ilimitado ou de capacidade cognitiva infinita; por isso, argumentava Simon, não otimizamos, apenas encontramos soluções suficientemente boas. Se isso é verdade — e seis décadas de ciência do comportamento só o confirmaram —, então a qualidade de uma instituição pública é, antes de tudo, a qualidade dos seus processos de decisão. Não a genialidade de quem ocupa o cargo. O processo.

E há uma peculiaridade que agrava o problema no setor público: o retorno sobre uma decisão é lento, difuso e contaminado. Uma política educacional só mostra seus frutos — ou seus danos — uma geração depois. Uma reforma administrativa é julgada por resultados que dependem de fatores muito além dela. Um investimento em prevenção é, por natureza, invisível quando funciona, pois o seu êxito é a ausência de uma catástrofe que não chegou a acontecer. Onde o resultado é tão tardio e tão ambíguo, confiar nele para medir a qualidade de quem decidiu é quase garantir que a instituição aprenderá a lição errada.

O viés que premia a sorte

Aqui a pesquisa oferece mais do que intuição. Comecemos pela armadilha que contamina toda avaliação de gestão: o viés de resultado. Daniel Kahneman e outros demonstraram que julgamos a qualidade de uma decisão pelo que aconteceu depois, e não pelas condições em que ela foi tomada. Uma política bem desenhada que fracassa diante de um choque imprevisto é lembrada como erro; uma aposta imprudente que deu certo por acaso entra para a história como visão. No setor público, onde os efeitos demoram e dependem de mil variáveis fora do controle do gestor, esse viés é especialmente corrosivo: ele premia o processo ruim que teve sorte e pune o processo bom que teve azar.

O efeito colateral é perverso. Quando a instituição trata todo mau resultado como se fosse má decisão, ela ensina seus dirigentes a temer não o erro, mas a aparência do erro. O gestor aprende que a escolha mais segura para a própria trajetória é, muitas vezes, a de não decidir — ou a de decidir o óbvio, o defensável, aquilo que ninguém questionará mais tarde. A obsessão pelo resultado, que se apresenta como rigor, produz o contrário do que promete: uma cautela defensiva que empobrece justamente o julgamento que dizia querer proteger.

Há um segundo defeito, ainda mais silencioso, que Kahneman, Olivier Sibony e Cass Sunstein descreveram sob o nome de ruído. Ruído é a variabilidade indesejada no julgamento: dois analistas igualmente competentes, diante do mesmo caso, chegando a decisões diferentes — ou o mesmo analista decidindo de um jeito pela manhã e de outro ao fim da tarde. Em qualquer instituição que concede licenças, aplica sanções, avalia projetos ou defere benefícios, o ruído é ao mesmo tempo um defeito de qualidade e uma questão de isonomia: o cidadão recebe respostas distintas para casos idênticos, e ninguém percebe, porque cada decisão, isolada, parece razoável. O achado mais importante dos autores é também o mais libertador: reduz-se o ruído não tornando as pessoas mais inteligentes, mas melhorando o processo — o que eles chamam de higiene de decisão. A qualidade, aqui, não é atributo do indivíduo; é propriedade do sistema.

Se o julgamento pode ser corrompido por vieses e por ruído, ele também pode ser educado. O maior estudo já conduzido sobre a qualidade do julgamento, dirigido por Philip Tetlock ao longo de anos, acompanhou milhares de pessoas fazendo previsões sobre eventos reais e chegou a uma conclusão que desmonta o mito do faro: julgar bem sob incerteza é uma habilidade mensurável e treinável, não um dom. Os melhores não eram os que mais sabiam, e sim os mais disciplinados no método — procuravam ativamente a informação que contrariava as próprias hipóteses, raciocinavam em termos de probabilidades e revisavam a posição diante de cada dado novo. Calibração, e não convicção, era o que os distinguia. A lição para a gestão pública é direta: a boa decisão é uma competência que se desenvolve, não uma sorte que se aguarda.

O paradoxo da pressão

Falta, porém, um elemento que quase toda discussão sobre decisão ignora: o estado de quem decide. A neurocientista Amy Arnsten demonstrou que o córtex pré-frontal — a região responsável pelo raciocínio deliberado, pela memória de trabalho e pela contenção do impulso — é também a mais vulnerável ao estresse. Sob pressão intensa e sensação de perda de controle, o comando cognitivo migra do córtex reflexivo para circuitos mais automáticos e reativos. Traduzindo para a linguagem da gestão: exatamente nas situações de crise, escrutínio e urgência — quando mais se cobra do dirigente uma decisão rápida — é quando a sua capacidade de decidir bem está mais comprometida. A cultura que idolatra a decisão veloz sob pressão está, sem perceber, exigindo o melhor julgamento no pior momento para produzi-lo.

E há uma dimensão final, coletiva. Nenhuma decisão relevante no setor público é, de fato, individual: ela nasce de equipes, assessorias, instâncias técnicas. Amy Edmondson mostrou que a qualidade dessas decisões depende de uma condição que não aparece em nenhum organograma — a segurança psicológica, o grau em que as pessoas se sentem livres para discordar, alertar e trazer a má notícia sem temer retaliação. Numa hierarquia rígida, o silêncio é facilmente confundido com concordância, e o dirigente decide cercado por um consenso que talvez seja apenas deferência ou receio. Muitas vezes, a informação que teria evitado o erro já existia na sala; só não encontrou caminho até a mesa.

O que muda para quem lidera

Reunidas, essas evidências convergem para uma reorientação do que significa liderar no setor público. Se a qualidade da decisão não está na velocidade do gesto nem no acaso do resultado, mas na robustez do processo, então a tarefa central do dirigente deixa de ser decidir sozinho e depressa, e passa a ser construir as condições para que a instituição decida bem — inclusive quando ele não estiver presente.

Isso altera a própria natureza do trabalho. O líder público mais valioso não é o que tem as melhores intuições, e sim o que constrói o melhor processo: aquele que distingue as decisões reversíveis, que pedem rapidez e toleram erro, das irreversíveis, que exigem lentidão deliberada e rigor; que torna o raciocínio de uma escolha explícito e revisável, em vez de guardá-lo na cabeça de uma só pessoa; que trata a divergência não como ameaça à autoridade, mas como matéria-prima de uma decisão melhor; e que, depois de decidir, examina o processo separadamente do resultado, para que a instituição aprenda a lição certa. Esse último ponto é o que separa organizações que apenas acumulam decisões daquelas que acumulam capacidade de decidir. Uma instituição madura não pergunta somente se a decisão deu certo; pergunta se ela foi bem tomada — porque sabe que, sob incerteza, apenas o segundo é replicável.

Nada disso é lentidão disfarçada de prudência. Decidir bem não significa decidir devagar; significa investir tempo e método onde o custo do erro é alto, e poupá-los onde ele é baixo. A maturidade de uma organização está justamente nessa capacidade de calibrar — de saber quando a rapidez é coragem e quando é apenas ansiedade vestida de eficiência.

Talvez o maior equívoco da cultura de gestão pública não seja tolerar a lentidão, como tantas vezes se teme, mas confundir movimento com direção. Aplaudimos o dirigente que decide e raramente perguntamos como ele decide — como se a energia da ação fosse, por si só, prova de qualidade. Mas a história das instituições é feita menos de decisões rápidas do que de decisões bem construídas, cujos efeitos atravessam mandatos e sobrevivem a quem as tomou.

Fica, então, uma pergunta que nenhum indicador de desempenho captura, e que talvez devesse anteceder qualquer elogio à firmeza de um gestor: quando este líder deixar o cargo, a instituição continuará decidindo bem sem ele? Se a resposta depende inteiramente da sua presença, não construímos liderança — construímos dependência. E a diferença entre uma e outra não se mede pela velocidade com que se decide hoje, mas pela qualidade do processo que permanece amanhã.

Alexandre Ivo.
Liderança que pensa.
alexandreivo.com.br · @alexandreivo80